| |
|
|
|
|
|
|
| Pessoas que passaram por acidentes ou doenças graves são desafiadas a readaptarem suas vidas todos os dias |
|
|
A vida naturalmente possui obstáculos a serem vencidos diariamente, mas para algumas pessoas esta tarefa é mais árdua. Seja em decorrência de um acidente ou por problemas de saúde, muitas pessoas descobrem o valor de pequenas ações cotidianas como escovar os dentes, pegar um copo de água ou mesmo se alimentar. Muitas vezes, neste momento a palavra superação passa a fazer parte do vocabulário e cada passo dado significa uma nova vitória.
O eletricista Flávio Lúcio Peralta relembra um desses momentos difíceis pelos quais passou. Em 1997, ele foi chamado para fazer a troca de um transformador em uma chácara. Ele chegou muito próximo aos fios de alta tensão e levou uma descarga de 13.800 volts. ”Naquele momento eu desmaiei e quando acordei estava no solo gritando de dor, implorando para o socorrista que não queria morrer”, relata.
Peralta conta que depois de três dias seu rim voltou a funcionar e os médicos disseram que ele teria que fazer uma amputação. “A autorização foi assinada por meu pai e no dia seguinte meus braços foram carregados por ele para uma universidade da cidade”, relembra.
Ele conta que foi um choque para seus familiares. Sua mãe não teve condições de cuidar dele no hospital e o pai, quando o viu pela primeira vez após o acidente no pronto socorro, saiu aos prantos. “Foi um desespero. Somente após alguns dias de internação é que os familiares vão assimilando a nova condição de amputado e juntos vamos pensando no que fazer. Mas, graças à Deus vencemos tudo isso e nos amamos muito mais hoje”, relata.
O momento mais difícil para ele foi a hora dos curativos porque sentia muita dor e quando os médicos chegavam ele já se desesperava. “Eu orava e um dia eu acordei rodeado por médicos. Todos estavam admirados, pois eu já estava livre das necroses. Eles não acreditavam no que viam. Uma nova etapa iria surgir: as cirurgias plásticas. E eu, que havia nascido com os dois braços, passei a viver sem nenhum”, afirma.
Após a amputação ele relata que só pensava em colocar as próteses para tentar retornar a sua vida normal. “Quando tive alta, fui morar com minha irmã Fátima e seus filhos, tivemos que nos condicionarmos a um novo estilo de vida”, afirma. Para fazer as próteses precisou viajar até São Paulo para que os moldes fossem modelados. “Quando chegou o dia em que eu pegaria minha prótese do braço direito, justamente aquele que não tinha cotovelo, entrei na sala e vi aquele objeto sobre a mesa, quase desmaiei. Fiquei branco e pensativo”, disse.
Ele afirma que teve uma decepção porque não conseguiu se adaptar à prótese. Somente depois de um ano quando conseguiu se adaptar com o braço esquerdo tornou-se mais independente.
| Amputados vencedores |
|
Segundo Flávio Lucio Peralta, em 2001, descobriu a informática e juntamente com seu professor tiveram a idéia de desenvolver o site “Amputados Vencedores”, que atualmente recebe 50.000 visitantes por mês. Ele conta que seu objetivo era ajudar as pessoas que estivessem passando pela mesma situação. A principal idéia do site é fornecer informações sobre os mais variados assuntos relacionados ao mundo da deficiência e da amputação.
Ele conta que foi pelo site que o presidente de uma grande empresa o descobriu. Queriam um sobrevivente brasileiro de acidente de trabalho que contasse sua história em um evento da empresa. “Quase desmaiei para falar um minuto. Saí correndo da sala e voltei para concluir a missão. Foi, então, que as coisas foram surgindo e hoje já ministrei mais de 340 palestras pelo Brasil afora”, relata.
Outra conquista de Peralta foi a produção de um livro que conta sua história. A ideia nasceu em 2006, mas somente dois anos depois com a ajuda da esposa ele finalizou o relato sobre sua trajetória. Ele conta que ao colher depoimentos dos parentes para escrever o livro ficou surpreso ao saber versões e ouvir palavras que nunca havia ouvido sobre o acidente. “Fiquei muito comovido com a força de minha família. Devo muito a todos eles. A idéia era poder oferecer palavras de inspiração para quem sofresse amputação e para seus familiares”, afirma. |
| Mais histórias de superação |
|
Por detrás de um sorriso sincero e um olhar de maturidade que a vida lhe trouxe com o tempo, Maria Rezende da Silva, nunca se indispôs com ninguém. Ela foi vítima de uma bala perdida enquanto saia da igreja. A bala ficou alojada no pescoço e quase atingiu a coluna, o que a impossibilitaria de andar. “Eu fiquei na cadeira de rodas, depois passei a andar com as muletas, não conseguia abrir as minhas mãos, mas graças a Deus eu nunca tive depressão, continuei sendo tranquila”, afirma.
Ela ainda tem dificuldades para fazer os serviços domésticos e para se locomover até a fisioterapia, mas continua lutando por sua recuperação. Atualmente ela cuida dos netos e de seu pai que tem 91 anos. Por isso, ela se diz agradecida por continuar vivendo.
O jovem Erick Oliveira do Carmo descobriu o valor da vida após um grave acidente. Ele conta que estava em sua moto atravessando uma preferencial quando foi atingido por outro veículo e seu pé direito acabou sendo esmagado. Ele passou por quatro cirurgias para recuperar o pé, mas os médicos decidiram que não havia solução e a perna teria que ser amputada para que não se desenvolvessem outras doenças. “Eu não deixei, porque eu sentia que poderia ser curado, sabia que um milagre poderia acontecer”, relata.
Após dois meses internado, teve alta e retornou para casa. A equipe de oito médicos afirmava que o melhor seria que ele retornasse ao hospital para que a amputação fosse realizada. Ele não desistiu e continuou fazendo quatro curativos por dia, sempre acreditando que iria se curar. Hoje ele está melhor, pode calçar tênis, locomove-se de moto e continua fazendo fisioterapia para ajudar na recuperação. “Eu sinto muita dor, esse é o preço que estou pagando por ter ficado com meu pé, mas acredito que fiz a escolha certa e vou continuar lutando”, afirma.
Daniele Paiva Nunes e Natalino Metuso, não se conhecem, mas passaram por situações semelhantes. Ambos tiveram que reaprender a viver e contaram com o apoio da família a qual consideram o mais importante na recuperação.Ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC), após a retirada de um dente e uma grave hemorragia. Ficou muito debilitada e passou muito tempo no hospital. Hoje ela faz fisioterapia regularmente e é mãe. “Os médicos disseram que se eu voltasse a ter filhos eu não iria sobreviver, mas correu tudo bem. Estou me adaptando a minha filha, ela me dá força para continuar”, afirma.
Natalino relata que após fazer uma cirurgia teve todo seu lado esquerdo paralisado. Vinte anos após este episódio já consegue se locomover sozinho. “O médico disse que eu tinha que continuar trabalhando na minha oficina porque exercitando a mente você acaba melhorando todo o resto”, disse.
| Curando o corpo e a mente |
|
Cristiane da Silva Fagundes é fisioterapeuta e trabalha na Associação dos Deficientes Físicos de Londrina (ADEFIL). Ele conta que desde o colégio pensava em seguir essa carreira. Segundo ela, a principal missão de um fisioterapeuta é a busca pela reabilitação do paciente e seu retorno à sua vida normal. “A cada dia temos uma nova experiência, o simples fato do paciente abotoar sua camisa ou pentear o cabelo sozinho já é uma vitória.
Ela conta que um dos pacientes que mais marcou sua trajetória, foi um senhor que sofreu um AVC. “Ele começou a ficar em pé, a dar os primeiros passos. Quando ele voltou a mexer a mão pela primeira vez foi a maior alegria, ele ficou emocionado e começou a chorar”, conta.
O psicólogo Eder Claiton Castilho é quem atende os pacientes na ADEFIL. Segundo ele, a palavra superação é a mais importante. “Cada paciente é uma aprendizagem para mim. Eu sempre digo que mais aprendo do que ensino”, afirma. Ele explica que no seu trabalho diário tenta despertar nos pacientes aptidões as quais nem eles mesmos conheciam e isso é essencial num momento de muita dor.
Castilho trabalha com todos os tipos deficiência desde o grau mais baixo ao mais alto. Por isso, segundo ele, é preciso identificar as necessidades de cada um aplicando técnicas diferentes, mas sempre buscando forças para enfrentar a situação.
Um caso específico marcou o que o fisioterapeuta. Um paciente que sofreu um acidente de caminhão, perdeu a família e teve seus braços e pernas amputados. Como agir nesse tipo de situação? Ele diz sempre tentar servir como suporte para a pessoa reagir. Castilho afirma que o paciente sabe que estará marcado pela vida toda, mas pode encontrar forças para continuar lutando e buscando pequenas conquistas dia após dia. |
|
|
Nenhum comentário:
Postar um comentário