Faz tanto tempo que não posto nada aqui no blog! Então, resolvi falar de um assunto que tem
tomado meu tempo e que não tem me deixado escrever sobre outras coisas. rs O
assunto é mídia-educação na perspectiva da comunicação comunitária. Primeiro
vou explicar como surgiu a mídia-educação. Depois, vocês vão entender a relação
desse estudo com Comunicação Comunitária. Já vou logo adiantando que uma coisa
tem tudo a ver com a outra! É claro que minha monografia traz uma explicação
bem mais completa, mas quero trazer esse tema através de um texto simples, para
que todos possam compreender essa nova forma de se pensar a comunicação.
A relação
entre Comunicação e Educação começa a se delinear a partir do século XX, porque
era justamente nesse momento que a tecnologia e a Indústria Cultural estavam
cada vez mais presentes na vida das pessoas. Surge então, a importância de se
repensar essa relação, e de que forma ela poderia trazer benefícios para o
processo de ensino. A Escola Nova causou uma revolução nesse sentido. Propondo
que o educando (não mais o aluno) se tornasse protagonista nesse processo. Célestin
Freinet trouxe uma prensa para dentro da escola e comprovou que através do
processo de comunicação é possível ensinar matérias como matemática, geografia,
história, línguas etc.
No Brasil,
também a partir da invasão da Indústria Cultural e período da Ditadura Militar,
pensadores como Paulo Freire entendiam que a mídia exercia forte influencia
sobre os sujeitos e que era necessário compreender como se dava esse processo
para tentar intermediá-lo. Naquela época, já se percebia a necessidade de que
as pessoas fossem mais críticas ao receber aquilo que a mídia retratava, e que
os indivíduos podiam utilizar-se dessas mídias a seu favor.
E se naquela
época já tinha muita gente pensado nisso, atualmente este estudo se tornou
ainda mais importante. Vivemos em uma sociedade midiatizada e, mesmo com os as
avanços da internet e do ensino no Brasil, muitas pessoas continuam achando que
a mídia traduz a pura realidade. Vamos pensar um pouquinho... Quantas coisas
acontecem em 24 horas? Por que a mídia retrata apenas alguns destes
acontecimentos? Por que não passou no Jornal Nacional o fato deixou de ocorrer?
Devemos compreender que o que os veículos de comunicação de massa retratam são
apenas alguns recortes da realidade. Isso vai depender da linha editorial do
jornal, interesses políticos ou econômicos, dentre tantas outras coisas.
Sabemos que a
comunicação comunitária tem tido um papel importante em um processo que
chamamos de desalienação, ou seja,
criar veículos contra-hegemônicos e que tragam conteúdos comunitários, que
sejam feitos dentro e pelos próprios moradores da comunidade. O objetivo é que
rádios, TVs, jornais impressos, sejam feitos pela própria população, para que
seu olhar também seja transmitido nesse processo. Cicília Peruzzo é
pesquisadora nessa área e fala da importância de inserir os sujeitos nesse
processo. Para ela, uma pessoa que participa de um projeto em comunicação nunca
mais será a mesma.
Mas, e a
mídia-educação? Ela também visa trazer essas pessoas como protagonistas no
processo de comunicação. Para além desse objetivo, quando a mídia-educação se
une a Comunicação Comunitária esse objetivo se expande, pois ela visa tornar os
educandos mais críticos, criativos e ativos em relação aos meios de comunicação
e de sua própria realidade. A mídia-educação na perspectiva da comunicação
comunitária também se embasa nos pensamentos de Paulo Freire, que afirmava que
a boa relação entre educando e educador é de extrema importância no processo de
aprendizagem. Além disso, na mídia-educação na perspectiva da comunicação
comunitária devemos levar em conta a realidade na qual esse educando está
inserido.
Atualmente
desenvolvo oficinas de mídia-educação no Projeto Criança Feliz, que ensina
música de graça na região Leste de Londrina. Como são essas oficinas? Esta é
uma metodologia proposta por Luzia Deliberador com base em muitos outros autos.
A autora propõe que se desenvolvam oficinas que trabalhem a identidade, a
cidadania, a relação com a comunidade e a criticidade dos educandos em relação
aos meios de comunicação. Após esse processo, os próprios jovens escolhem em
que tipo de veículo querem trabalhar. No caso dos meus pequenos, eles
escolheram a televisão. A partir daí, eles criam pautas que estavam ligadas a
realidade do bairro. O trabalho está sendo realizado no Jardim Monte Cristo, o
local costuma ser noticiado pela mídia por assuntos negativos como roubos,
mortes, tráfico de drogas etc. Mas, esses jovens sabem das potencialidades do
seu bairro e trouxeram pautas positivas, demonstrando que o recorte que a mídia
faz do que ocorre no local em que eles vivem tem sido direcionado apenas para
alguns temas.
Terminamos
agora de gravar o programa de entretenimento Hoje é a Comunidade, que é um reflexo de tudo que debatemos durante
os três anos em que trabalho com eles. Tem pauta sobre moda, mas mostrando como
as pessoas podem comprar roupas baratas em um bazar realizado dentro do Jardim
Monte Cristo. Eles também mostraram como os moradores jogam lixo pelo bairro e
a importância da preservação do local. A maioria dos educandos faz parte do
Projeto Criança Feliz, por isso surgiu uma pauta sobre a apresentação da
Orquestra e do Coral. E para resgatar a história do bairro, eles fizeram uma
entrevista como uma moradora que falou das conquistas do local e do que ainda
falta.
Não digo que
esse processo irá mudar o mundo (não sou tão pretensiosa), mas percebo mudanças
significativas nas crianças que participaram das atividades. Quando olho as
fotos das primeiras oficinas percebo que eles cresceram, e não foi apenas na
estatura. Eles cresceram criticamente, passaram a olhar para o bairro de uma
maneira diferente, percebendo que eles também são responsáveis pelos processos
de conquistas e mudanças no Jardim Monte Cristo. Se a comunicação pode
influenciá-los negativamente, a recíproca é verdadeira! Este é um trabalho que
me realiza profissionalmente e que me faz sentir contribuindo de alguma forma
para que o mundo seja um lugar melhor para se viver!